Gabriel Silva - CEO Ahimsa

Muito além de uma dieta que exclui todo alimento de origem animal, o veganismo é um estilo e uma filosofia de vida. Priorizando o consumo consciente de produtos de todos os setores de produção, o vegano tem como ponto de partida o respeito aos animais e ao planeta Terra, mantendo-se atento à totalidade da cadeia produtiva dos mais variados bens de consumo.

São importantes, por exemplo, fatores como as práticas sociais e ambientais das empresas, as condições de trabalho e a valorização dos profissionais envolvidos na produção, a origem da matéria prima e também seu eventual impacto ao meio ambiente. Ou seja: do fornecedor até o ponto de venda, do cuidado com os funcionários ao descarte final do produto, todo o processo é fundamental para um negócio vegano.

Complicado? Um pouco. Mas atender as necessidades desse público crítico é o que tem feito a marca de calçados veganos Ahimsa em um setor da indústria pautado pela escala e pelo consumo desenfreado de artigos em couro animal. Localizada em Franca, pólo coureiro e calçadista no interior de São Paulo, a fábrica vegana surgiu do encontro entre uma necessidade pessoal (mas também da humanidade) e a oportunidade enxergada por Gabriel Silva, que em 2013 criou a marca Ahimsa - palavra em sânscrito que significa “não fazer o mal”; a tradução perfeita para os princípios da empresa.

DESPERTANDO PARA A CAUSA

"A TODO MOMENTO A GENTE TEM QUE PROVAR QUE É IGUAL OU MELHOR DO QUE OS PRODUTOS CONVENCIONAIS"

Mas essa história começa um pouco antes, quando um diagnóstico de diabetes tipo I mudou a vida - e a carreira - de Gabriel, que aos 21 anos era um jovem piloto de avião. A mesma doença que lhe impediu de seguir na aviação, foi também a responsável por abrir as portas que deram início à uma caminhada de pés no chão rumo à causa que ele e sua empresa hoje defendem. “Escolhi ser vegetariano uns 6 meses depois desse diagnóstico, mas mais por uma questão de saúde; pensando só em mim, vamos dizer assim, por causa da minha doença”. Esse foi o seu primeiro passo dado em direção ao que os veganos chamam de "despertar".

O "despertar" nada mais é do que a tomada de consciência para a causa vegana, ou no dizer popular, “quando a ficha cai”. Enquanto uns são ativistas ferrenhos, outros nem sequer conhecem os motivos que levam uma pessoa a adotar o modo de vida vegano. Uns demoram mais, outros menos, mas aos poucos, conforme o debate atinge mais pessoas, essa transição vai tomando corpo e o número de adeptos dessa filosofia, de indivíduos que “despertam” para a causa, cresce exponencialmente ao redor do mundo.

Com o diagnóstico da doença, Gabriel deixou de ser piloto para trabalhar com o pai no setor calçadista em Franca, se apaixonando pelo negócio e adquirindo o know how que aplicaria poucos anos depois ao criar a Ahimsa. No entanto, antes de aderir à dieta vegana, ele passou a aplicar os princípios do veganismo em outras áreas de sua vida, evitando comprar itens como carteiras, calçados e cintos que continham insumos de origem animal em sua fabricação. “Até que eu percebi que não estava encontrando produtos que seriam legais para eu usar”, comenta o empresário. Foi quando se deu conta de que a oportunidade estava batendo em sua porta - afinal, nada melhor do que ele mesmo fazer os produtos que buscava!

Foram seis meses pesquisando o mercado e também um nome para batizar a ideia. Também nesse período, durante o processo de elaboração e lançamento da Ahimsa, ocorreu a virada que faltava na vida do ex-piloto: ao adotar uma filhote de cachorro e acompanhar o seu processo de crescimento, ele percebeu que não fazia mais sentido, por mais que já não comesse carne, a exploração de filhotes de outros seres vivos. "Esse foi o ponto de virada na minha relação com os animais. Pra mim foi uma maneira de eu levantar ainda mais essa bandeira, que era o que eu queria defender com a minha marca também", relembra.

Assim nasceu a Ahimsa. Vegana desde sua concepção, a primeira fábrica 100% vegana no mundo ocupa hoje um barracão de 1300 m² no Distrito Industrial de uma cidade reconhecida internacionalmente por seus sapatos e artigos em couro. Com uma produção diária de 150 pares e mais de 40 funcionários no seu quadro, a empresa assumiu em 2013 o compromisso de mostrar aos consumidores de todo o mundo que é possível abolir a exploração animal e encaminhar a produção industrial rumo à uma nova era de consumo consciente, com menor impacto social, ambiental e que não exige o sacrifício do estilo, da qualidade ou de valores exorbitantes. "E para isso a responsabilidade é muito grande. A todo momento a gente tem que provar que é igual ou melhor do que os produtos convencionais", comenta Gabriel.

Para comprovar o engajamento da marca com a causa vegana, te convido a dar uma volta pela fábrica para conhecer o cuidadoso processo.

A PRODUÇÃO: ATIVISMO SILENCIOSO DO CHÃO DA FÁBRICA AOS SEUS PÉS

Quando perguntado se a Ahimsa é uma marca ativista, Gabriel responde que até certo ponto sim. "O mais importante para nós é ser inclusivo o tempo todo, porque a partir do momento em que você é muito ativista, você acaba excluindo", pontua o diretor da marca. "Eu não preciso excluir ninguém, eu não posso excluir ninguém dessa mudança de consumo; então o nosso ativismo acontece de maneira silenciosa, mas sempre presente."

Se o ativismo é silencioso, o resultado desse debate, pelo menos entre alguns dos funcionários da própria fábrica, é gritante. Mesmo que quase todos mantenham a carne em sua dieta, a consciência a respeito do veganismo atinge todos que estão alí dentro, uns mais outros menos. É o caso de Maicon Silva. Responsável pelo almoxarifado, ele e sua equipe recebem e analisam todos os insumos que serão utilizados na confecção dos produtos da Ahimsa. "Tudo que chega na fábrica a gente analisa, vê se dá pra usar, se chegou alguma coisa em alguma cor diferente do pedido. Tudo passa pelas nossas mãos", afirma. É ele quem "libera" a matéria prima para as próximas etapas da produção.

Almoxarifado

Com experiência no setor calçadista como classificador de couro, Maicon confessa que achou estranho esse papo de veganismo quando chegou na empresa. "Quando entrei aqui eu pensei, 'esse povo é meio estranho'", conta aos risos. Ele ainda acrescenta que não parou de comer carne, mas que repensou alguns velhos hábitos depois de participar de algumas palestras oferecidas pela empresa sobre o estilo de vida vegano. "Eu vejo que muitas coisas eu já adquiri para a minha vida só de eu estar trabalhando aqui, de estar envolvido na empresa. Por exemplo, a questão de separar o lixo: antigamente eu não fazia isso, hoje eu já vou adequando algumas coisas pra minha vida", comenta. Ele ainda ressalta um diferencial fundamental na empresa: a atenção ao funcionário. "Hoje as empresas pensam em produtividade. Isso é o importante para outras empresas, não o que você come, como tá a sua vida, se você está bem… Aqui é o primeiro lugar que eu me senti valorizado."

Saindo das mãos do Maicon, o material vai para a produção, onde o calçado começa a ganhar forma. Diversos funcionários se dividem entre o corte da matéria prima, a união das peças recortadas e o pesponto - que é a costura exigida para cada modelo de sapato. É nessa etapa que trabalha Carlos Eduardo, o responsável por manusear uma máquina de corte super tecnológica da fábrica. "Em Franca não tem tanto dessa máquina que eu trabalho", observa. Para manusear o equipamento, Carlos fez um curso de 3 meses de duração no SENAI; já para trabalhar na empresa ele comenta que teve que se adaptar ao novo ritmo de trabalho. "Aqui o principal é a questão da qualidade, porque nas outras empresas o que mais se visa é a produção, é quantidade e não qualidade. Quando eu cheguei eu estranhei um pouco, pelo ritmo de trabalho ser um pouco mais lento, mais focado nessa qualidade", afirma.

Produção

Além do ritmo diferenciado, a adaptação ao material sintético utilizado é um dos pontos que os funcionários enfatizam ser um pouco complicado. Por muitos terem vindo de fábricas que utilizavam couro animal, essa mudança requer certa paciência. É o que me apontou Lucimara Messias Martins, responsável por diferentes etapas na preparação das peças que vieram do corte. "Não é que é difícil, é que para trabalhar com sapato você tem que sentir. Você tem que ter um padrão, saber se vai ficar legal ou não; então demora um pouquinho pra acostumar com o material", explica Lucimara. Ela confessa que "apanhou uns dois meses" até pegar o jeito do material sintético utilizado pela Ahimsa, o poliuretano (PU). "Mas depois que eu fui aprendendo adequei meu trabalho e deu certo", comenta.

A Lu, como é conhecida na produção, admite que alterou muito pouco seu consumo de carne desde que aprendeu mais sobre o veganismo na empresa. "Eu acho que pra você ter esse estilo de vida você tem que ir muito a fundo. Acho que você tem que ter um foco, um compromisso", opina. Mas, por outro lado, assume que passou a ver os pequenos animais com outros olhos: "hoje eu olho e penso 'pra quê que eu vou matar ele? Também é um ser vivo!'"
Após a união das peças e realizados os ajustes necessários, surge o cabedal - parte superior do sapato, acima da sola. O cabedal vai para a montagem onde será unido à sola e passará pelo processo final de produção para se transformar no sapato que você conhece. Hoje a Ahimsa pr oduz também a própria sola dos seus calçados, com modelos exclusivos da marca. Esse processo é um dos que foram internalizados pela empresa no intuito de qualificar seu produto dentro do mercado vegano, garantindo assim as condições éticas e ambientais exigidas pelos consumidores destes produtos.

Produção

É na última etapa de produção que encontramos o simpático Aílton Gonçalves. Ele é supervisor da área e integra a equipe de funcionários responsáveis pela montagem e acabamento dos calçados. Na Ahimsa desde sua fundação, em 2013, Aílton lembra que foi graças aos treinamentos oferecidos pela empresa que pôde perder cerca de 6 kg. "Eu não conhecia o veganismo; tinha ouvido falar mas não sabia profundamente o quê significava isso", afirma. Foi após um treinamento com a presença de uma nutricionista que muita coisa mudou para ele. "Ainda gosto de carne, não posso negar, mas eu era muito exagerado! Eu tinha um barrigão enorme, era bem pesadão", comenta dando risada. "Mas mudei minha vida radicalmente a partir da minha chegada na Ahimsa. Antes era churrasco todo final de semana, carne gorda e muitos animais. Hoje ainda não estou pronto para ser um vegano total, mas estou no meio do caminho, o que já é uma grande vantagem! Para mim fez a diferença."
Diferença nos exames médicos, como o colesterol, e na vida particular de Aílton, que levou os princípios que aprendeu na fábrica para casa e hoje sua família já repensou o consumo de carne. "A Ahimsa é uma escola para nós, para todos nós. A cada dia é uma novidade aqui, algo novo que a gente vê, e assim vamos aprendendo no dia a dia."

Produção

O jovem Renan Dias, concorda com o experiente Aílton. "Aqui na Ahimsa eu aprendi muita coisa, adquiri muita experiência profissional", comenta o responsável pela expedição, área para onde vão os sapatos já prontos antes de deixarem a fábrica. "O meu trabalho é despachar os pedidos. Todos os pedidos que são gerados na empresa, eu que fico com a responsabilidade de mandar eles embora. Eu separo os sapatos, embalo tudo certinho, confiro e mando embora", afirma Renan. Daqui os produtos da Ahimsa atravessam o mundo, chegando a destinos como Austrália, França, Alemanha e EUA.

Expedição

São entre 20 e 30 dias para que toda essa jornada seja finalizada por um novo lote de produtos. Mas o trabalho na Ahimsa não acaba com a saída do produto finalizado de sua fábrica.

ATENÇÃO DO INÍCIO AO FIM

O SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor) da Ahimsa ainda cumpre a função de dar respaldo e conferir os feedbacks que a empresa recebe de seus clientes, conferindo a aceitação do público e as possíveis críticas que venham a surgir. Comandado por Rafael Julião, o SAC possibilita um contato com a visão dos clientes sobre o veganismo e também suas histórias. "Muitos contam como conheceram a marca, ou como ela mudou a vida deles nessa questão do veganismo. Outros também relatam como um sapato faz eles pensarem melhor nas suas atitudes e escolhas… São relatos e feedbacks bastante interessantes", alega Rafael.

SAC

A assistente de estilo Marina Andrade, afirma que a inspiração vem do que é básico, clássico e atemporal. "A gente tenta mostrar que um sapato não precisa ser de origem animal para ser bonito e para atender as necessidades do dia a dia, por isso utilizamos os melhores materiais existentes no mercado", explica. "Às vezes a pessoa come carne, mas ela entendeu que para de fazer sentido usar o couro se existe coisas tão boas assim e que não exploram nenhum animal."

Estilista

Outro setor importante e que também foi verticalizado, passando a funcionar dentro da empresa, é a área de T.I., onde trabalha Diego Queiroz, contratado para desenvolver a plataforma de vendas online da marca. "Antes a gente trabalhava com empresa terceirizada", recorda Diego. Mesmo não tendo abandonado o churrasco no final de semana, ele alerta que as pessoas precisam começar a fazer algo para tentar mudar a lógica de produção e consumo ao redor do mundo. "Eu como carne, mas a empresa mudou mesmo foi a minha visão de mundo. Passei a entender a parte 'deles', dos veganos, o que defendem e o porquê", afirma.

TI

Como empresário vegano, Gabriel aponta para os benefícios que a filosofia de vida pode trazer para a indústria: "Em um mundo capitalista, o que o veganismo pode ajudar muito é fazer com que o empresário, o proprietário, o empreendedor, possa olhar para o próximo como um igual. Independente se ele é humano ou animal, o próximo não é inferior por tarefa, não é inferior por capacidade, mas sim é um igual."
Com essa dinâmica, a Ahimsa cumpre desde 2013 seu papel de entregar um produto ético e de qualidade, que tem toda a sua cadeia de produção verificada, garantindo assim um tratamento adequado para os funcionários e a certeza de que, naquela fábrica no interior de São Paulo, só entram animais vivos!


E aí? Vamos despertar para a causa? Então #GoVegan já!



Go Vegan - Ahimsa